segunda-feira, 5 de outubro de 2015

MALINCULIA


Poesia de Antonino Sales, linda, como as poesias de nossos cabôcos das Gerais ou repentistas do Nordeste, como Patativa do Assaré e outros. A poesia escrita conforme se fala nos grotões é peculiarmente agradável, o que lhe dá muitas possibilidades de rimas e construções belíssimas.
Isso é arte pura. Mas, das duas uma: 1) ou o autor fala assim e outro registrou o original; 2) ou ele captou a linguagem simples, mas fala conforme a norma padrão, registrando aquela como homenagem ao falante humilde. Seria atrevimento tentar reescrever o poema conforme a norma padrão...


Malinculia, Patrão,
É um suspiro maguado
Qui nace no coração!
É o grito safucado
Duma sodade iscundida
Qui nos fala do passado
Sem se torná cunhicida!
É aquilo qui se sente
Sem se pudê ispricá!
Qui fala dentro da gente
Mas qui não diz onde istá!
Malinculia é tristeza
Misturada cum paxão,
Vibrando na furtaleza
Das corda do coração!
Malinculia é qui nem
Um caminho bem diserto
Onde não passa ninguém...
Mas nem purisso, bem perto,
Uma voz misteriosa
Relata munto baxinho
Umas história sodosa,
Cheias de amô e carinho!
Seu moço, malinculia
É a luz isbranquiçada
Dos ano qui se passô...
É ternura... é aligria...
É uma frô prefumada
Mudando sempre de cô!
Às vez ela vem na prece
Qui a gente reza sozinho.
Otras vez ela aparece
No canto dum passarinho,
Numa lembrança apagada,
No rumance dum amô,
Numa coisa já passada,
Num sonho que se afindô!
A tá da malinculia
Não tem casa onde morá...
Ela veve noite e dia
Os coração a rondá!
Não tem corpo, não tem arma,
Não é home nem muié...
E ninguém lhe bate parma
Pru caso de sê quem é!
Ela se isconde num bejo
Qui foi dado há muntos ano...
Malinculia é desejo,
É cinza de disingano,
Malinculia é amô
Pulo tempo sipurtado,
Malinculia é a dô
Qui o home sofre calado
Quando lhe vem à lembrança
Passages da sua vida...
Juras de amô... isperança...
Na mucidade culhida!
É tudo o que pode havê
Guardado num coração!
É uma histora que se lê
Sem forma de ispricação!
Pruquê inda vai nacê
O home, ou mermo a muié,
Capacitado a dizê
Malinculia o qui é!!!

(gravura: O violeiro, de Almeida Júnior)

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